VIA
Eu caminhava nu, sem que você visse.
Pra que você visse, eu caminhava sem.
Você não via. Pra que você soubesse,
eu caminhava nem, sem que você visse,eu caminhava livre, além do limite de
ser ninguém, sem remo e sem alento,
o andar isento quase de mim mesmo,
num estranho, cansado engano,sem âncora, no vento, e mais contente.
Nu, livro ao avesso; nu, anel sem dedo;
nu, anel sem dentro; nu, a pedra
bruta; nu, um livro bruto, antesdo acabamento, cimento grosso,
na antemão da cal, da letra, descampado,
como se a mão de alguém me desenhasse,
antiqüíssimo, no dorso de um vaso.Sem poder ser belo, sem poder ser feio,
coisa-coisa no espaço, no tempo, eu ia.
O sol me reconhecia: eu era o filho
mais novo do boro e do alumínio.Meu passo exalava o hálito do barro.
As crianças me apontavam, riam.
Tudo se condensava à minha roda.
No entanto, nenhuma flor surgianos meus passos: os brejos permaneciam
sáfaros, cobertos de urzes, sem que nada
fosse esquivo, estranho ou intratável,
nenhum recife, navalha ou gesto sórdido.E pra que se desse a ver, meu silêncio
dizia: cabelo, pele. Sorri: os anjos de pedra
me acenaram. Eu caminhava sem,
em você, sem que você visse.
O poeta carioca Eucanaã Ferraz está nos quadros da faculdade de Letras da UFRJ. Honra dupla à cidade do Rio. É uma felicidade quando encontramos na universidade (como tem havido com freqüência) a criatura bifronte poeta-estudioso. Cada metade contribui para o enriquecimento da outra. A prática se torna critério da verdade (K. Marx). Não conheço o trabalho acadêmico do poeta. Mas esse poema é bastante sugestivo.
Encontramos a transcendência onírica da própria poesia. A capacidade da verdadeira arte (distante dos padrões consumistas ou da senectude formal) é transcender a si mesma e imanentizar o belo em cada jogo expressivo. “Arte é intuição lírica”, dizia B. Croce. O artista refunde a experiência poética para possibilitar a adequação da estrutura da linguagem aos anseios artísticos. As significações da linguagem se expandem para (re)forçar as construções sintáticas. “Pra que você visse, eu caminhava sem” é um verso paradigmático. A pergunta normal seria: caminhava sem o quê? E o verso “eu caminhava nem”? Aí que está. A chave interpretativa é a surpresa pela quebra do significado. Não só isso. A alternância rítmico-sonora é o eixo do poema. A aspereza da quebra é só aparente. Aqui está o contrapeso dialético da fluidez da alternância rítmico-sonora.
O domínio poético para esse efeito é grande. O objetivo é o que chamo de “choque da positividade”. A contradição do efeito visa libertar o leitor da monotonia formal. A unidade se dá na conjunção paulativa (mas incisiva) dos dois princípios contrários (quebra-e-som). A catarse surge da fuga experimental para a unidade lírica. Ela é possível porque não existe uma luta de fato. Cada espécie está deslizando num gênero diverso. Aristóteles ensinava que há eternidade onde não há um princípio contrário. Considero que a retiliniaridade obtida a partir desse aspecto metafísico progride sem problemas (é positiva). O aspecto mais claro é que os dois princípios cooperam no desenvolvimento fluidal do poema. O fundo não é dialético na verdade. Existe uma composição orgânica efetiva. Não se pode esquecer que os gêneros aqui são complementares.
A repetição do vocábulo “nu” é mais uma evidência do desenvolvimento fluidal do poema. O efeito é sonoro. Mas o efeito poético se dá na cópula entre o som e o significado. Não é só um arranjo aleatório de sons. O conteúdo caminha unido à forma.
O poema joga com a problematicidade do entendimento. Vimos que existe uma forçosidade necessária já na forma. Assim como o eu-lírico se encontra despojado, o verso se encontra despojado de continuidade. A roupa faz parte do indivíduo. É o objeto dele. Um verbo sem um ponto de apoio lógico também está nu. Existe uma absurdidade nisso. O homem nu por estar nu também parece um absurdo. A terceira estrofe cria uma cachoeira de paroxismo. As imagens se sucedem. Vemos nu/anel sem dedo, nu/livro bruto… A necessidade mais básica implora por acabamento. Estamos diante de um ser cuja forma ainda não foi definida. Mas ele está no devir. “Coisa-coisa no espaço, no tempo, eu ia”. Ele é entendível por si como potencial. O problema já toca na filosofia clássica mais pura. Essa matéria-prima é um ser. Só que ele possui um tipo de intuição teleológica. A “coisa-coisa” possui em si um querer-vir-a-ser obscuro. É quase paradoxal. Mas uma vez um poeta me disse que um poema não precisa de construções lógicas ou exatas. Ele tem razão. Uma daz razões do próprio vir-a-ser poético é abastecer-se de significações. Elas realocam as categorias usuais num prisma único. É a unidade poética que serve como catalizador do entendimento. EM toco caso, não podemos nos prender na jaula de ferro classicista.
A resolução está na vontade cega. A razão está submetida a ela. O eu-lírico é movido pela vontade. A própria natureza o reconhece no estado mais bruto. É que a vontade universal está presente em cada aspecto cósmico. O querer-vir-a-ser só pode ser compreendido numa perspectiva agônica shopenhauriana. Ela é a resposta ao dilema que a filosofia clássica impõe sem conseguir explicar. Existe também uma sombra do idealismo fichteano na resolução (obscura, é verdade) do eu-lírico em querer se individualizar. Temos um eu-lírico que pode ser compreendido em parte como o movimento do próprio Eu absoluto querendo se individualizar.
(O poema sugere um tipo de panteísmo. O fato de ele não esclarecer esse ponto não é demérito. Precisamos escapar da concepção viciante de ler uma poesia como ensinamento (ou doutrina) puro.)
“Nenhuma flor surgia” significa apenas que o eu-lírico é um ver-em-si. A auto-formação (uma Bildung?) é posta em contraste com o mundo.
A última parte é ainda mais exigente. O que o eu-lírico quer dizer com “caminha sem, em você, sem que você visse”? Eucanaã Ferraz propôe uma construção délfica. A licença sintática é a razão poética mesma. Só nos resta dialetizar. Os dois “sem” estão irmanados ou não? A resposta negativa implicaria na formalização da alteridade como aspecto próprio-causal do eu-lírico. A conseqüência disso é óbvia para qualquer um que conheça os princípios da filosofia clássica de matéria e forma. Encontraríamos a celebração mais efusiva da alteridade como nossa própria causa formal! Uma perspectiva idealista alemã nos conduziria a algo mais radical. Nossa individualização se daria pela ação do outro. A brincadeira de Lassalle, ao contar que iria se casar a um amigo, fica mais clara: “Vou me individualizar numa mulher.” Não sei se outro poeta levou tão longe a celebração da fraternidade humana como Eucanaã Ferraz. Seria uma perspectiva radical. É um hegelianismo cuja feição é poética.
Uma resposta positiva implicaria numa postura oposta. A alteridade seria uma categoria absoluta. Não existiria um veículo de comunicabilidade entre os vários ser-em-si pessoais. O único laço que todos teríamos em comum se dá na natureza. Formaríamos um triângulo relacional. Seria um universo de absolutos humanos. Essa interpretação também demonstra uma radicalidade no poema. Mas essa radicalidade é o que vemos na sociedade. O mundo moderno criou agentes humanos cuja percepção de si é absoluta. As pessoas não se comportam como se fossem da mesma espécie. Elas se comportam como se cada qual fosse do mesmo gênero. O máximo que ocorre é um frenesi modelar, cujo fim seria uma crise sacrificial (René Girard). As vidas humanas se tornam incomunicáveis do ponto de vista ôntico. A diferença entre meu eu e o outro é abissal. Essa falta de comunicação é o pano de toda disputa do homem moderno. Ela pode se dar na disputa por mercados consumidores, na disputa pela mão-de-obra mais barata, disputa modelar reforçada pela sociedade de consumo… Aqui temos a fonte geradora de crises ininterruptas. O totemismo individual gera a discórdia. O poeta teria reconciliado o eu com o mundo. Mas a que preço? Alienando a interatividade da experiência humana.
As margens interpretativas significam as pontes que Eucanaã construiu nas possibilidades do real. Podemos atravessá-las como quisermos. O resultado importante é a poesia como categoria centrada em si, mas espelhando o lirismo artístico. Eucanaã Ferraz conseguiu criar uma grande obra graças a esse resultado. Seja qual a propriedade abraçada no desenvolvimento interpretativo, ele posiciona o nosso olhar no lirismo poético (e, por que não, poetizador).
Já me disseram que ele possui uma sensibilidade recitativa aguçada. Os metros seriam diluídos numa interpretação delicada, impressionante. O ouvinte seria convidado a uma experiência poética singular. O ritmo se tornaria o ponto de partida de um movimento ondulatório. A declamação tradicional daria lugar a uma pulsação vivente. Mas digo o que me contaram. Não tive a felicidade de ouvi-lo ainda.
Parece que os alunos de Letras da UFRJ têm muita sorte.
