Ainda bem que tenho amigos progressistas. Um deles me indicou o excelente blog Poesia-pau. O mantenedor é o poeta, músico, editor e crítico de poesia Ronald Augusto.
Fiquei impressionada com o domínio técnico do crítico. Estamos diante de alguém que nos conduz com mão firme na floresta poética. Um exemplo é como ele analisa o poetar de Jaime Medeiros Jr.:
Em termos métricos, os meio-sonetos não se pretendem exatos. Assim, o que aparentemente indicaria um impasse, se converte em vantagem porque semelhante imprecisão no tocante ao balizamento do metrônomo, confere a estas peças uma sintaxe contemporânea: elipses em fuga. Poder-se-ia dizer que o poeta simula uma batida metrificada por meio de uma dicção que se constitui no intervalo entre a versificação tradicional e a “música sem-versista” das vanguardas. Notar no poema o detalhe da precipitação vertiginosa de enjambements como que exigidos pela estrutura paratática e interpolativa do discurso
Não é sempre que lemos críticos tão inteligentes.
Todos sentimos necessidades de justificar a arte. A poesia não pode escapar desse problema. Para que ela serve? Ronald Augusto joga luz nessa questão numa entrevista:
Esta pergunta me trás à memória o poema “O porto sepulto” de Giuseppe Ungaretti, do qual destaco o seguinte trecho: “Di questa poesia/ mi resta/ quel nulla/ d’inesauribile segreto”, que me permito tresler assim: poesia, essa coisa nenhuma de inexaurível segredo. A poesia não serve para coisa alguma, nem se presta à transmissão de mensagens. Seu fazer parece querer ficar rente àquelas zonas mais obscuras e imprecisas da experiência. Seu movimento sígnico em realidade busca não dissimular, mas sim problematizar, um aspecto crítico da linguagem, ao qual não se dá a devida atenção, a saber: esta crença infundada de que só a linguagem articulada e seu corolário – uma objetividade desinteressada e quase transparente -, é capaz de iluminar e decodificar o íntimo dos seres e das coisas. Na prática, o resultado é bem outro. Tal pretensão de desvelamento acaba, ao contrário, projetando sombras de sentido e mal entendidos em torno à totalidade dos objetos; mais do que “signo tradutor por excelência”, a palavra como legenda se depara o tempo todo com as suas margens e sua arbitrariedade. Assim, mais do que esclarecido, explicado, o real se volta múltiplo, errático quando mediado tão só pelo signo lingual todo-poderoso.
Quero citar um trecho de um artigo do mesmo Ronald Augusto sobre o Manifesto Antropofágico. Estão unidos no artigo sagacidade e domínio do tema:
Com efeito, a álacre vivacidade sintético-crítica da ensaística do movimento concreto da primeira hora, é haurida na doutrinação cubo-futurista da prosa por justaposição dos Manifestos de Oswald. De outra parte, a canção popular a partir das décadas de 1950/60 ganha outras dimensões com as radicalizações da Bossa nova e da Tropicália. Evoco aqui o trocadilho intertextual de Jardes Macalé, “a bossa nova é o luxo da tropicália”, que, por seu turno, parece reverenciar, com essa equação verbal, o vietcong concreto Augusto de Campos. O virtual xadrez oximoresco luxo-lixo vislumbrado na tirada do compositor, representa para todos os efeitos um pouco do que seria o diálogo mixado entre alto e baixo repertórios no embate potencialmente antropofágico da música popular. A “geração mimeógrafo” dos anos 70, objeto de estudo e de culto de Heloísa Buarque de Hollanda, vive seu desbunde poético-existencial sob a égide do autor de Serafim Ponte Grande que em algum lugar refere o gênio como “uma grande besteira”. O campo estético das artes contemporâneas, que dissipa fronteiras sígnicas e identitárias, expandindo, quer pela apropriação, quer pela expropriação críticas, a imagem do legado cultural universal, aponta para a questão de fundo da “Antropofagia” oswaldiana: o instinto, ou melhor, a “razão” antropofágica, como prefere referir Haroldo de Campos, pensa a identidade e o verismo nacionais em diálogo com os insumos “inimigos”, mas na perspectiva da invenção. Isto é, o que importa é a margem de liberdade e de apetite com que trabalha a persona do canibal cultural na re-acomodação dos dados do outro ou da herança universal visando à criação original.
O poeta às vezes consegue ser de uma direticidade que não fica a dever a certos erotismos violentos medievais. É o caso de Odisseu para seus remeiros:
o obsceno não fica a caminho de nada
não vale como acidente
quem o quer vasculhar palmo a pau
cu à cona
não deve fazê-lo sem os colhões terceiros
Um espírito burguês sentiria desconforto lendo esse poema. O assunto é tratado sem leveza. Não há pontos, nem maiúsculas. O que importa é a direticidade da mensagem, como um grafite obsceno de Pompéia. Mas esse estilo “grafiteiro” serve para outros conteúdos. É o que vemos nessa parte de Pequena coleção:
nunca a música da prosa e
para retroalimentar-se da outra escapulindo
ao que só em prosa – acontece –
o poeta entope os ouvidos
com cera de segunda mão
cada página que o prosador
perpetra
petalismo
até
agora uma gargalhada pregas
pedrada na polpa da poesia
o que tomou para si a tradição do verso
e que versolibrista e que anti-semita
invejará de maneira total
a astúcia de odisseu
o prosador
desceu
aos
in
fernos
monte santo
cosme velho
o qual brinca com o recurso visual. Ronald Augusto deve ser encarado em parte como espírito lúdico, em parte como um espírito sério, preocupado com os fundamentos da arte.
O site do poeta tem bons links. Gostaria de indicar um. É o blog da ativista afro-brasileira Sátira Machado Viamão. (Ela possui na verdade vários blogs. Não consultei todos.)
Um encanto lúdico é o fundo do blog da Sátira. É todo negro.
Ela dedicou o site ao poeta afro-brasileiro Oliveira Silveira, cuja obra já foi traduzida para várias línguas. Tão poeta que tem uma rima no nome! Ele é um dos batalhadores da causa negra há tempos (bem antes do grupo Tição, ele já militava). Foi um dos responsáveis pelo Dia da Consciênca Negra (20 de novembro).
A habilidade poética não deixa de ter uma função social. Um exemplo das preocupações conscientizadoras do poeta aparece ao longo de Treze de maio:
Liberdade de asas quebradas
como
…….. este verso.
Podemos ver que é importante o apelo visual, mesmo recurso do Ronald Augusto.
Quem quiser saber mais sobre o poeta, leia o ótimo artigo do Ronald Augusto. Um trecho:
Oliveira é capaz de uma contensão e de uma elegância que só me permito associá-las à sempiterna e serpentina vanguarda da velha-guarda de todos os sambas. A metalinguagem do samba – que se dá a ver na mais ligeira recordação de alguns exemplos do seu cancioneiro -, desmente a concepção de que o uso da metalinguagem é uma prerrogativa viciosa e restrita à erudição de cunho burguês.
Não sou afro-descendente. Mas todos sabemos que os brasileiros têm um pé em algum cantinho da mãe África (e a civilização também; um sueco não deixa de ser afro-descendente). Numa perspectiva cidadã, devemos todos ser negros também. Estou irmanada em sentimentos com aqueles que militam pela igualdade racial.
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3 comments
Comments feed for this article
September 27, 2008 at 9:56 pm
sebastião edson macedo
cara sebastiana arruda cruz,
um amigo acaba de me enviar o link de sua leitura, e li, e fiquei muito arejado com o que li. creio que não sei o que dizer, mas sei que me emociona, isso, e de um modo bem santo. conheço o meu coração quando ele se atrapalha.
gostaria de enviar meu e-livro para vc.
e estar à disposição para o diálogo possível, que é a vida do que mais me importa.
um abraço honesto de cordialidade.
s.
September 27, 2008 at 9:57 pm
sebastião edson macedo
sedmacedo@gmail.com
September 28, 2008 at 2:33 am
ronald augusto
querida sebastiana arruda cruz, fiquei muito contente com a atenção que você devotou ao meu trabalho, obrigado! mas dois ou três leitores feito você e eu me dou por satisfeito. abraços e parabéns pelo website!
ronald